Até alguns meses atrás, o Lyon se preparava para encarar uma temporada difícil. Todos os indícios de um 2011/12 cheio de armadilhas se apresentavam ao clube francês: técnico novo e pouco experiente na profissão, presença discreta no mercado de transferências, três anos sem conquistar títulos e adversários que investiram pesado em contratações.
Após três meses de bola rolando, porém, o time se consolidou nas primeiras colocações do Campeonato Francês, segue na corrida pela classificação aos mata-matas da Liga dos Campeões da UEFA e já garantiu presença nas quartas de final da Copa da Liga Francesa. E o principal: está jogando bem. Graças sobretudo a Michel Bastos.
Em grande fase, apesar de atualmente estar afastado dos gramados por três semanas devido a uma contusão na coxa, o brasileiro voltou a atuar no nível que o transformou em titular absoluto da Seleção até a Copa do Mundo da FIFA 2010. E embora não tenha sido convocado após a troca de Dunga por Mano Menezes, ele garante que não desistiu de voltar a vestir a camisa canarinho.
Do seu novo papel de líder no Lyon à ambições com a Seleção Brasileira, passando pelos encantos do país-sede do próximo Mundial, o versátil Michel Bastos tinha muito a conversar com a equipe do FIFA.com.
FIFA.com: Individualmente, você estreou muito bem no Campeonato Francês com o Lyon. Na França se fala muito de Javier Pastore, Nenê e Eden Hazard, mas talvez o melhor jogador do campeonato seja o Michel Bastos...Michel Bastos: (risos) Não sei se estou entre os melhores jogadores, mas recuperei muito da qualidade do meu futebol. Estou me sentindo bem e acho que ajudo a equipe. Mas eu diria que o Pastore é mais eficiente. Ele marca muitos gols, faz muitas assistências, em suma: é mais decisivo. Mas o meu objetivo não é ser o melhor, é render o máximo possível e ajudar o time. Estou contente com o meu início de temporada. Tomara que continue assim.
No meio do ano, o Lyon anunciou que 2011/12 seria uma temporada de transição. Depois desse bom início de campanha, porém, a meta continua sendo "sobreviver" ou vocês estão mirando mais alto?Não queremos esconder o jogo, mas, no começo da temporada, não éramos favoritos ao título. Existem equipes que estão na nossa frente. Mas sabemos o que precisamos fazer. Qualidade para chegar o mais alto possível a gente tem. O objetivo é fazer o máximo para continuar na briga até o fim. Não somos favoritos, mas nem sempre é o favorito que ganha. Nos anos anteriores, éramos favoritos e não ganhamos.
Com a renovação do elenco e a escolha de apostar nos jovens da base, você agora é um dos jogadores mais experientes do Lyon. Gosta desse papel?Sou antigo no time, tenho 28 anos, mas sempre gostei de brincar, de levar um pouco de descontração ao vestiário. Mas com a minha idade e a minha experiência, preciso dar o exemplo aos mais jovens, aos jogadores que até poucos meses ou anos estavam no juvenil e tinham os profissionais como modelo. Hoje tento ajudar ao máximo. Existem vários jogadores com esse papel a desempanhar no grupo — Cris, Kim Kallström, Anthony Reveillère, Remy Vercoutre —, que estão lá para orientar pelo discurso e pelo comportamento mais profissional possível. É um papel que me agrada, que me dá mais responsabilidades.
É frustrante para você ter chegado ao Lyon quando o clube era o melhor da França e não ter ganhado nada desde então?Tenho a impressão que sou pé frio! (risos) Até o momento, o destino não sorriu para mim. Mas sei que estou no lugar certo. Tenho o clube e as qualidades necessárias para conquistar títulos. Talvez inclusive este ano. Espero de verdade ganhar alguma coisa, porque sei que temos muita qualidade no grupo. Isso é o mais frustrante. O que decepciona não é não ganhar, mas saber que temos tudo que é preciso para ganhar e não conseguir chegar lá. Se não tivéssemos condições, diríamos que é normal e que simplesmente perdemos contra o mais forte que nós. Mas quando olhamos o time que temos, sabemos do valor da equipe e não conseguimos aproveitar. Isso é ainda mais doloroso.
Você já jogou em todas as posições do setor esquerdo. Mas, sendo canhoto, muitas vezes também joga pela direita, como o Lionel Messi no Barcelona ou o Arjen Robben no Bayern de Munique. Gosta da posição?É verdade que mudei muitas vezes, e que também mudo de posição no decorrer da partida. Depende do adversário, do esquema tático, do andamento do jogo. Os outros atacantes e eu gostamos de inverter para tentar surpreender o adversário. Em algumas partidas, essa minha versatilidade e as inversões nos ajudaram muito. Quando estou na direita, tenho a possibilidade de entrar com o pé esquerdo, para chutar com a perna mais forte ou abrir o jogo para o lateral atrás de mim. Do outro lado, tenho mais chances de tabelar e de me concentrar em fazer bons cruzamentos. Tudo depende da partida, onde posso ser mais útil para o time. Mesmo assim, prefiro atuar na minha posição de origem, no lado esquerdo.
Você é um dos últimos brasileiros do Lyon, ao lado de Cris e Ederson. O que você e os seus antecessores, jogadores como Sonny Anderson, Juninho, Cláudio Caçapa, Fred e Nilmar trouxeram para o clube?A maioria desses jogadores marcou o clube. O que os brasileiros trouxeram para o Lyon é antes de mais nada a cultura da vitória, a vontade de deixar uma marca na história do clube. Quero fazer o mesmo, conquistar algo importante. O melhor exemplo é o Juninho, que ganhou tudo aqui, deu tudo para transformar o Lyon num grande clube. A maioria dos brasileiros que passaram pelo Lyon deixou uma marca. Também quero conseguir deixar.
Falemos de Seleção Brasileira. Na era Dunga, você ganhou o seu lugar na equipe e passou um ano com o elenco. Que lembranças guarda desse período?Ótimas lembranças! Eu estava no melhor momento da minha carreira. Todas as vezes em que fui convocado, joguei, ganhei a minha vaga como titular, tive a possibilidade de disputar uma Copa do Mundo... E ainda não acabou! Estou trabalhando para voltar, mesmo sabendo que vai ser difícil porque a concorrência é grande. Se eu conseguir boas atuações no Lyon, as portas da Seleção Brasileira podem voltar a se abrir. Não é mais um sonho, porque o sonho era um dia jogar na Seleção e isso eu já consegui, mas, em todo caso, continua sendo um objetivo.
Com a chegada do Mano Menezes, você perdeu espaço na Seleção. Conversou com ele sobre isso?Encontrei com ele em Paris quando o Brasil veio jogar um amistoso com a França. Ele me disse que precisou fazer escolhas e que tinha ideias sobre o elenco, e que se eu voltasse à Seleção seria na minha posição atual, na meia esquerda. Mas se ele precisar me convocar para jogar de novo como lateral, também não me incomoda. O essencial é estar na equipe. Atualmente ele está tentando montar o grupo. Respeito as escolhas dele e, até agora, foram as escolhas certas. Mas tudo isso ainda pode mudar, sabemos que as coisas acontecem rápido. No momento, o André Santos e o Marcelo estão na minha frente porque são jogadores que atuam realmente na lateral esquerda nos seus clubes, posição em que não jogo mais desde que vim para a França. Mas a minha vontade seria ter uma chance na minha verdadeira posição.
O Brasil foi eliminado prematuramente da Copa do Mundo da FIFA 2010. Passado um ano, acalmados os ânimos, como você explica essa decepção?Na verdade, tudo deu certo até o segundo tempo contra a Holanda. Estávamos bem até ali, inclusive fizemos um excelente primeiro tempo naquele dia — sem dúvida a nossa melhor atuação desde o início do torneio. Mas, depois, é impossível explicar o que aconteceu. Jogamos mal, nos perdemos no segundo tempo e pagamos muito caro por isso. No fim das contas, houve muitas coisas positivas na nossa campanha e algumas negativas, mas as pessoas só lembram do que não funcionou. Pessoalmente, tento guardar os aspectos positivos para continuar evoluindo. Mas é preciso encarar a verdade: tive a oportunidade de ser campeão do mundo e deixei passar... Tento tirar as lições desse fracasso para seguir em frente. Mas a Copa do Mundo foi um momento que jamais vou esquecer.
O próximo Mundial não está tão longe, e será justamente no Brasil. É o grande sonho de todo jogador brasileiro, e seu também?Tenho consciência de que será difícil, porque terei quase 32 anos em 2014. Isso não faz parte dos meus objetivos atualmente. O meu objetivo, no curto prazo, é finalmente conquistar um título no Lyon e manter o meu nível o mais alto possível para realizar a melhor carreira possível. Se continuar assim até 2014, se eu ainda estiver em forma, pode acontecer... Todo mundo sonha em jogar ou voltar a jogar uma Copa do Mundo, mas atualmente essa não é a meta principal da minha carreira. Mesmo que ainda falte tempo, será difícil por causa da idade. Por outro lado, sinto que estou no meu melhor momento física e tecnicamente. Portanto, se continuar assim daqui a três anos, por que não?
Todo mundo conhece os clichês sobre o Brasil. O que as pessoas que visitarem o país em 2014 vão descobrir?As pessoas que nunca visitaram o Brasil vão descobrir acima de tudo a simpatia das pessoas. É algo que marca todo mundo na primeira vez. Depois, embora sejam clichês, é a verdadeira realidade do Brasil: alegria, festa, praia, mulher bonita, samba, futebol. Não é pouco! O que as pessoas precisam saber é que tudo que se diz sobre o Brasil é verdade! Elas serão muito bem recebidas e vão apreciar tudo que faz a beleza do nosso país. As pessoas vão ao Brasil para conhecer isso. É importante que elas descubram aquela alegria de viver que temos e que sabemos transmitir.
FONTE: FIFA.com
FOTOS: olweb.fr